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O Paradoxo do Ócio Atarefado

25 de agosto de 2026

Este texto, apesar de falar sobre Inteligência Artificial, vai abordar mais o lado comportamental do que qualquer assunto técnico. É uma percepção minha, nesta “nova era”, em que estamos passando por um período de transição tecnológica.

Apesar de chamar isso — digamos que seja um sentimento — de Paradoxo do Ócio Atarefado, não é algo novo. Outros já enxergaram algo parecido em diferentes épocas da nossa sociedade. Podemos citar o Paradoxo de Jevons, que diz que o ganho de eficiência no uso de um recurso aumenta o consumo total dele; ou Ruth Schwartz Cowan, em More Work for Mother, que mostra como a invenção dos eletrodomésticos não reduziu as horas de trabalho doméstico, apenas elevou o sarrafo da exigência social; e a Lei de Parkinson, segundo a qual o trabalho se expande para preencher o tempo disponível. Afinal, numa sociedade capitalista, todo bom trabalho é premiado com mais trabalho, certo?

Apesar de já haver diversas percepções documentadas, gostaria de deixar meus dois centavos.

Tenho trabalhado diariamente com o auxílio da IA. A empresa em que trabalho disponibiliza algumas ferramentas (Cursor, GitHub Copilot e até um harness innersource) e tem incentivado o uso e o desenvolvimento de uma forma de trabalho que aproveite todo o potencial disponível para aumentar nossa produtividade. Tem sido uma experiência transformadora e, às vezes, assustadora.

Mas o ponto que me deixou reflexivo não é esse. Usando ou não a IA, durante aquelas oito horas por dia eu estaria — e estou — fazendo meu trabalho da melhor maneira possível, e cada oportunidade de aprender e aumentar meu desempenho é bem-vinda. O problema é o que acontece depois, pelo menos no meu caso.

Toda novidade gera aquela sigla que virou moda por aqui, apesar de ser uma expressão estadunidense: o tal do FOMO (fear of missing out), que nada mais é do que o medo de ficar de fora, de ficar chupando dedo. Afinal, quem chega cedo bebe água limpa.

E com isso vêm as horas de estudo no tempo de folga e, especialmente no caso da IA, os projetos e ideias que pipocam na cabeça: bastam alguns prompts para o MVP sair do papel. Desde que meu filho nasceu, não tenho pegado nenhum freela, o que reduziu bastante meu tempo de tela depois do trabalho. Mas aí você estuda, vê o potencial, olha para o lado e todos os seus amigos e conhecidos estão usando e abusando dessa “novidade”. Não tem como ficar de fora. Você passa a estudar, passa a entender, passa a evoluir, enxerga potencial, implementa, desenvolve, estuda mais e, por fim… trabalha mais.

Em conversa com amigos, mais de um relata a mesma coisa — prova de que nenhuma experiência é só nossa. “Esse trem vicia!”

Para finalizar, já peço desculpas a você que chegou até aqui esperando alguma conclusão, um desfecho, uma dica. Não tenho nenhuma. Só usei meu ócio para tentar expor esse sentimento, enquanto alguns agentes implementavam ideias que ninguém me pediu — assim como ninguém pediu este texto.

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